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Escrito por estrobo às 11h19
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Tordesilhas

“Tordesilhas” do poder compartilhado (02/11) Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (02/11/2007) no Correio Braziliense:
O sistema sempre dá um jeito de se livrar dos que fazem muita marola. Quem está no comando do barco não quer onda. Se o sujeito faz muita marola é porque não tem barco para comandar
Por Alon Feuerwerker alon.feuerwerker@correioweb.com.br
O leitor tem o direito de perguntar qual é a lógica de o PSDB oferecer-se repetidamente em Brasília como tábua de salvação ao petismo em apuros. Aconteceu na eleição de Arlindo Chinaglia à Presidência da Câmara, em fevereiro. E acontece novamente agora, na batalha pela prorrogação da vigência da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da Desvinculação de Receitas da União (DRU).
Não que o governo seja incapaz de reunir, mesmo sem o aval tucano, apoio de 49 senadores para levar a CPMF e a DRU pelo menos até 2011. Mas é inegável que o endosso oficial do PSDB, se vier, dará ao Palácio do Planalto um fôlego adicional, útil para juntar aquela gordurinha, aquele excesso capaz de reduzir o risco sempre presente das traições de última hora.
Aliás, mesmo se o PSDB recusar formalmente o acordo proposto pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, não será difícil para o presidente recolher alguns preciosos votos entre tucanos e democratas. A política séria, que envolve poder e dinheiro, não combina com o comportamento de biruta.
Se o PSDB topou, partidariamente, ir tão longe numa negociação com supostos adversários figadais, ficaria algo artificial agora um fechamento de questão contra a CPMF e a DRU, ou eventuais processos de expulsão contra possíveis dissidentes. O clima está mais para casamento do que para divórcio. E festa de casamento não é lugar para se ficar brigando.
Esta coluna começou com um pensamento solto, a partir da curiosidade intelectual sobre por que afinal gente que passa o tempo todo se estranhando junta-se na hora “h”. Talvez caiba aqui, antes de tudo, uma certa autocrítica. O jornalismo tem sido capaz de expor com nitidez a rivalidade entre os políticos, seus grupos e projetos. Mas não temos sido tão competentes assim para escancarar a face não iluminada do poder. O terreno em que os donos da política não apenas concordam, mas colaboram entre si. Quando arranhamos esse universo, alcançamos apenas seus aspectos mais imediatos, superficialmente materiais.
Sabemos, por exemplo, que o PSDB está mais macio do que o Democratas na questão da CPMF porque os governadores tucanos precisam do governo federal. Mas os senadores também precisam, tanto que a proposta de acordo oferecida pelo Planalto contempla talvez mais estes do que os primeiros. E o Senado é a última trincheira de poder do ex-PFL. E todo senador sabe que exibir força política junto ao governo federal é condição indispensável para ir em frente na carreira.
Talvez seja o caso de especular se a maciez recente do PSDB não é um sinal a mais de que na política brasileira vige um “Tratado de Tordesilhas” informal. Há uma linha divisória. E os participantes do jogo asseguram um ao outro respeito e apoio político no âmbito do poder — e do orçamento — conquistado nas urnas. Por essa regra não escrita, petistas mandam em Brasília com apoio velado de tucanos. E tucanos mandam, por exemplo, em São Paulo e Minas Gerais com apoio velado de petistas. Em outras palavras, a flacidez da oposição que o PSDB faz ao governo federal só encontra paralelo na flacidez da oposição que o PT faz aos principais governos estaduais do PSDB.
O Tordesilhas original caducou por obra e graça do ímpeto expansionista dos bandeirantes. Agora, aparentemente, não corremos esse risco. Brasília, São Paulo e Minas Gerais parecem confortáveis no jogo. Há quem tente desequilibrar a balança, como no caso do dossiê aloprado às vésperas do primeiro turno da eleição para governador de São Paulo ano passado. Mas logo o sistema político dá um jeito de livrar-se do incômodo. De desembarcar os que fazem muita marola. Quem está no comando do barco não quer onda. E sse o sujeito faz marola é porque não tem barco para comandar.
Verdade que de tempos em tempos sobrevém uma crispação. No mais das vezes, isso acontece quando um fato novo acende as esperanças dos capitães sem navio. De imediato, eles movimentam-se, produzindo em geral mais calor do que luz. O tempo, porém, encarrega-se de acomodar as coisas. Como herança da batalha, sobram algumas cruzes na beira da estrada. E só. O consórcio Brasil segue o seu rumo. Até a próxima sístole. Que ameaçará com o fim do mundo. Para no final não dar em nada. Talvez porque no Brasil, em resumo, ninguém esteja verdadeiramente disposto a afrontar o poder.
Escrito por estrobo às 14h55
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